Tempos de mudança

Re: Tempos de mudança

Mensagempor zézen » Sábado 15 Novembro 2008, 11:22

Chegou por mão Amiga.
***********************************************

Não me pesa a consciência por estar a escrever-lhe esta carta. Sabe, é
que eu não votei em si para primeiro-ministro, portanto estou à
vontade. Eu votei em branco. Mas, alto lá! Antes que você peça ao seu
assessor para lhe fazer um discurso sobre o afastamento dos jovens da
política, lembre-se, senhor engenheiro: o voto em branco não é o voto
da indiferença, é o voto da insatisfação! Mas, porque vos é
conveniente, o voto em branco é contabilizado, indiscriminadamente,
com o voto nulo, que é aquele em que os alienados desenham macaquinhos
e escrevem obscenidades.


Texto completo no post seguinte: (sò para quem gostar de ler e de questionar)
a.o.s., foi, é, e serà sempre, um F.D.P.
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Re: Tempos de mudança

Mensagempor zézen » Sábado 15 Novembro 2008, 11:24

Sr. Eng.º José Sócrates,

Antes de mais, peço desculpa por não o tratar por Excelência nem por
Primeiro-Ministro, mas, para ser franca, tenho muitas dúvidas quanto
ao facto de o senhor ser excelente e, de resto, o cargo de
primeiro-ministro parece-me, neste momento, muito pouco dignificado.

Também queria avisá-lo de antemão que esta carta vai ser longa, mas
penso que não haverá problema para si, já que você é do tempo em que o
ensino do Português exigia grandes e profundas leituras. Ainda pensei
em escrever tudo por tópicos e com abreviaturas, mas julgo que lhe faz
bem recordar o prazer de ler um texto bem escrito, com princípio, meio
e fim, e que, quiçá, o faça reflectir (passe a falta de modéstia).

Gostaria de começar por lhe falar do "Magalhães". Não sobre os erros
ortográficos, porque a respeito disso já o seu assessor deve ter
recebido um e-mail meu. Queria falar-lhe da gratuitidade, da
inconsequência, da precipitação e da leviandade com que o senhor
engenheiro anunciou e pôs em prática o projecto a que chama de
e-escolinha.

O senhor fala em Plano Tecnológico e, de facto, eu tenho visto a
tecnologia, mas ainda não vi plano nenhum. Senão, vejamos a cronologia
dos factos associados ao projecto "Magalhães":

No princípio do mês de Agosto, o senhor engenheiro apareceu na
televisão a anunciar o projecto e-escolinhas e a sua ferramenta: o
portátil Magalhães.

No dia 18 de Setembro (quinta-feira) ao fim do dia, o meu filho traz
na mochila um papel dirigido aos encarregados de educação, com apenas
quatro linhas de texto informando que o "Magalhães" é um projecto do
Governo e que, dependendo do escalão de IRS, o seu custo pode variar
entre os zero e os 50 euros. Mais nada! Seguia-se um formulário com
espaço para dados como nome do aluno, nome do encarregado de educação,
escola, concelho, etc. e, por fim, a oportunidade de assinalar, com
uma cruzinha, se pretendemos ou não adquirir o "Magalhães".

No dia 22 de Setembro (segunda-feira), ao fim do dia, o meu filho
traz um novo papel, desta vez uma extensa carta a anunciar a visita,
no dia seguinte, do primeiro-ministro para entregar os primeiros
"Magalhães" na EB1 Padre Manuel de Castro. Novamente uma explicação
respeitante aos escalões do IRS e ao custo dos portáteis.

No dia 23 de Setembro (terça-feira), o meu filho não traz mais
papéis, traz um "Magalhães" debaixo do braço.

Ora, como é fácil de ver, tudo aconteceu num espaço de três dias úteis
em que as famílias não tiveram oportunidade de obter esclarecimentos
sobre a futura utilização e utilidade do "Magalhães". Às perguntas que
colocámos à professora sobre o assunto, ela não soube responder.
Reunião de esclarecimento, nunca houve nenhuma.

Portanto, explique-me, senhor engenheiro: o que é que o seu Governo
pensou para o "Magalhães"? Que planos tem para o integrar nas aulas?
Como vai articular o seu uso com as matérias leccionadas? Sabe, é que
50 euros talvez sejam pouco para se gastar numa ferramenta de
trabalho, mas, decididamente, e na minha opinião, é demasiado para se
gastar num brinquedo. Por favor, senhor engenheiro, não me obrigue a
concluir que acabei de pagar por uma inutilidade, um capricho seu, uma
manobra de campanha eleitoral, um espectáculo de fogo de artifício do
qual só sobra fumo e o fedor intoxicante da pólvora.

Seja honesto com os portugueses e admita que não tem plano nenhum.
Admita que fez tudo tão à pressa que nem teve tempo de esclarecer as
escolas e os professores. E não venha agora dizer-me que cabe aos pais
aproveitarem esta maravilhosa oportunidade que o Governo lhes deu e
ensinarem os filhos a lidar com as novas tecnologias. O seu projecto
chama-se e-escolinha, não se chama e-familiazinha! Faça-lhe jus!
Ponha a sua equipa a trabalhar, mexa-se, credibilize as suas
iniciativas!

Uma coisa curiosa, senhor engenheiro, é que tudo parece conspirar a
seu favor nesta sua lamentável obra de empobrecimento do ensino
assente em medidas gratuitas.

Há dias arrisquei-me a ver um episódio completo da série Morangos com
Açúcar. Por coincidência, apanhei precisamente o primeiro episódio da
nova série que significa, na ficção, o primeiro dia de aulas daquela
miudagem. Ora, nesse primeiro dia de aulas, os alunos conheceram a sua
professora de matemática e o seu professor de português. As imagens
sucediam-se alternando a aula de apresentação de matemática por
contraposição à de português. Enquanto a professora de matemática
escrevia do quadro os pressupostos da sua metodologia - disciplina,
rigor e trabalho - o professor de português escrevia no quadro os
pressupostos da sua - emoção, entrega e trabalho. Ora, o que me faz
espécie, senhor engenheiro, é que a personagem da professora de
matemática é maldosa, agressiva e antiquada, enquanto que o professor
de português é um tipo moderno e bué de fixe. Então, de acordo com os
princípios do raciocínio lógico, se a professora de matemática é
maldosa e agressiva e os seus pressupostos são disciplina e rigor,
então a disciplina e o rigor são coisas negativas. Por outro lado, se
o professor de português é bué de fixe, então os pressupostos da
emoção e da entrega são perfeitos. E de facto era o que se via.
Enquanto que na aula de matemática os alunos bufavam, entediados, na
aula de português sorriam, entusiasmados.

Disciplina e rigor aparecem, assim, como conceitos inconciliáveis com
emoção e entrega, e isto é a maior barbaridade que eu já vi na minha
vida. Digo-o eu, senhor engenheiro, que tenho uma profissão que vive
das emoções, mas onde o rigor é "obstinado", como dizem os poetas. Eu
já percebi que o ensino dos dias de hoje não sabe conciliar estes dois
lados do trabalho. E, não o sabendo, optou por deixar de lado a
disciplina e o rigor. Os professores são obrigados a acreditar que
para se fazer um texto criativo não se pode estar preocupado com os
erros ortográficos. E que para se saber fazer uma operação aritmética
não se pode estar preocupado com a exactidão do seu resultado. Era o
que faltava, senhor engenheiro!

Agora é o momento em que o senhor engenheiro diz de si para si: mas
esta mulher é um Velho do Restelo, que não percebe que os tempos
mudaram e que o ensino tem que se adaptar a essas mudanças? Percebo,
senhor engenheiro. Então não percebo? Mas acontece que o que o senhor
engenheiro está a fazer não é adaptar o ensino às mudanças, você está
a esvaziá-lo de sentido e de propósitos. Adaptar o ensino seria afinar
as metodologias por forma a torná-las mais cativantes aos olhos de uma
geração inquieta e voltada para o imediato. Mas nunca diminuir, nunca
desvalorizar, nunca reduzir ao básico, nunca baixar a bitola até ao
nível da mediocridade.

Mas, por falar em Velho do Restelo...

... Li, há dias, numa entrevista com uma professora de Literatura
Portuguesa, que o episódio do Velho do Restelo foi excluído do estudo
d'Os Lusíadas. Curioso, porque este era o episódio que punha tudo em
causa, que questionava, que analisava por outra perspectiva, que é
algo que as crianças e adolescentes de hoje em dia estão pouco
habituados a fazer. Sabem contrariar, é certo, mas não sabem
questionar. São coisas bem diferentes: contrariar tem o seu quê de
gratuito; questionar tem tudo de filosófico. Para contrariar, basta
bater o pé. Para questionar, é preciso pensar.

Tenho pena, porque no meu tempo (que não é um tempo assim tão
distante), o episódio do Velho do Restelo, juntamente com os de Inês
de Castro e da Ilha dos Amores, era o que mais apaixonava e empolgava
a turma. Eram três episódios marcantes, que quebravam a monotonia do
discurso de engrandecimento da nação e que, por isso, tinham o mérito
de conseguir que os alunos tivessem curiosidade em descodificar as
suas figuras de estilo e desbravar o hermetismo da linguagem. Ainda
hoje me lembro exactamente da aula em que começámos a ler o episódio
de Inês de castro e lembro-me das palavras da professora Lídia,
espicaçando-nos, estimulando-nos, obrigando-nos a pensar. E foi há 20
anos.

Bem sei que vivemos numa era em que a imagem se sobrepõe à palavra,
mas veja só alguns versos do episódio de Inês de Castro, veja que
perfeita e inequívoca imagem eles compõem:

"Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruito,

Naquele engano d'alma ledo e cego,

" Que a fortuna não deixa durar muito (...)"

Feche os olhos, senhor engenheiro, vá lá, feche os olhos. Não consegue
ver, perfeitamente desenhado e com uma nitidez absoluta, o rosto
branco e delicado de Inês de Castro, os seus longos cabelos soltos
pelas costas, o corpo adolescente, as mãos investidas num qualquer
bordado, o pensamento distante, vagueando em delícias proibidas no
leito do príncipe? Não vê os seus olhos que de vez em quando escapam
às linhas do bordado e vão demorar-se na janela, inquietos de saudade,
à espera de ver D. Pedro surgir a galope na linha do horizonte? E
agora, se se concentrar bem, não vê uma nuvem negra a pairar sobre
ela, não vê o prenúncio do sangue a escorrer-lhe pelos fios de cabelo?
Não consegue ver tudo isto apenas nestes quatro versos?

Pois eu acho estes quatro versos belíssimos, de uma simplicidade
arrebatadora, de uma clareza inesperada. É poesia, senhor engenheiro,
é poesia! Da mais nobre, grandiosa e magnífica que temos na nossa
História. Não ouse menosprezá-la. Não incite ninguém a desrespeitá-la.

Bem, admito que me perdi em divagações em torno da Inês de Castro. O
que eu queria mesmo era tentar perceber porque carga de água o Velho
do Restelo desapareceu assim. Será precisamente por estimular a
diferença de opiniões, por duvidar, por condenar? Sabe, não tarda
muito, o episódio da Ilha dos Amores será também excluído dos
conteúdos programáticos por "alegado teor pornográfico" e o de Inês de
Castro igualmente, por "incitamento ao adultério e ao desrespeito pela
autoridade".

Como é, senhor engenheiro? Voltamos ao tempo do "lápis" azul?

E já agora, voltando à questão do rigor e da disciplina, da entrega e
da emoção: o senhor engenheiro tem ideia de quanta entrega e de quanta
emoção Luís de Camões depôs na sua obra? E, por outro lado, o senhor
engenheiro duvida da disciplina e do rigor necessários à sua
concretização? São centenas e centenas de páginas, em dezenas de
capítulos e incontáveis estrofes com a mesma métrica, o mesmo tipo de
rima, cada palavra escolhida a dedo... o que implicou tudo isto senão
uma carga infinita de disciplina e rigor?

Senhor engenheiro José Sócrates: vejo que acabo de confiar o meu
filho ao sistema de ensino onde o senhor montou a sua barraca de circo
e não me apetece nada vê-lo transformar-se num palhaço. Bem, também
não quero ser injusta consigo. A verdade é que as coisas já começaram
a descarrilar há alguns anos, mas também é verdade que você está a
sobrealimentar o crime, com um tirinho aqui, uma facadinha ali, uma
desonestidade acolá.

Lembro-me bem da época em que fiz a minha recruta como jornalista e
das muitas vezes em que fui cobrir cerimónias e eventos em que você
participava. Na altura, o senhor engenheiro era Secretário de Estado
do Ambiente e andava com a ministra Elisa Ferreira por esse Portugal
fora, a inaugurar ETAR's e a selar aterros. Também o vi a plantar
árvores, com as suas próprias mãos. E é por isso que me dói que agora,
mais de dez anos depois, você esteja a dar cabo das nossas sementes e
a tornar estéreis os solos que deveriam ser férteis.

Sabe, é que eu tenho grandes sonhos para o meu filho. Não, não me
refiro ao sonho de que ele seja doutor ou engenheiro. Falo do sonho de
que ele respeite as ciências, tenha apreço pelas artes, almeje a
sabedoria e valorize o trabalho. Porque é isso que eu espero da
escola. O resto é comigo.

Acho graça agora a ouvir os professores dizerem sistematicamente aos
pais que a família deve dar continuidade, em casa, ao trabalho que a
escola faz com as crianças. Bem, se assim fosse eu teria que ensinar o
meu filho a atirar com cadeiras à cabeça dos outros e a escrever as
redacções em linguagem de sms. Não. Para mim, é o contrário: a escola
é que deve dar continuidade ao trabalho que eu faço com o meu filho.
Acho que se anda a sobrevalorizar o papel da escola. No meu tempo, a
escola tinha apenas a função de ensinar e fazia-o com competência e
rigor. Mas nos dias que correm, em que os pais não têm tempo nem
disposição para educar os filhos, exige-se à escola que forme o seu
carácter e ocupe todo o seu tempo livre. Só que infelizmente ela tem
cumprido muito mal esse papel.

A escola do meu tempo foi uma boa escola. Hoje, toda a gente sabe que
a minha geração é uma geração de empreendedores, de gente criativa e
com capacidade iniciativa, que arrisca, que aposta, que ambiciona. E
não é disso que o país precisa? Bem sei que apanhámos os bons ventos
da adesão à União Europeia e dos fundos e apoios que daí advieram, mas
isso por si só não bastaria, não acha? E é de facto curioso: tirando o
Marco cigano, que abandonou a escola muito cedo, e a Fatinha que
andava sempre com ranhoca no nariz e tinha que tomar conta de três
irmãos mais novos, todos os meus colegas da primária fizeram alguma
coisa pela vida. Até a Paulinha, que era filha da empregada (no meu
tempo dizia-se empregada e não auxiliar de acção educativa, mas,
curiosamente, o respeito por elas era maior), apesar de se ter ficado
pelo 9º ano, não descansou enquanto não abriu o seu próprio Pão Quente
e a ele se dedicou com afinco e empenho. E, no entanto, levámos
reguadas por não sabermos de cor as principais culturas das
ex-colónias e éramos sujeitos a humilhação pública por cada erro
ortográfico. Traumatizados? Huuummm... não me parece. Na verdade,
senhor engenheiro, tenho um respeito e uma paixão pela escola tais
que, se tivesse tempo e dinheiro, passaria o resto da minha vida a
estudar.

Às vezes dá-me para imaginar as suas conversas com os seus filhos (nem
sei bem se tem um ou dois filhos...) e pergunto-me se também é válido
para eles o caos que o senhor engenheiro anda a instalar por aí.
Parece que estou a ver o seu filho a dizer-lhe: ó pai, estou com
dificuldade em resolver este sistema de três equações a três
incógnitas... dás-me uma ajuda? E depois, vejo-o a si a responder com
a sua voz de homilia de domingo: não faz mal, filho... sabes escrever
o teu nome completo, não sabes? Então não te preocupes, é
perfeitamente suficiente...

Vendo as coisas assim, não lhe parece criminoso o que você anda a fazer?

E depois, custa-me que você apareça em praça pública acompanhado da
sua Ministra da Educação, que anda sempre com aquele ar de infeliz, de
quem comeu e não gostou, ambos com o discurso hipócrita do mérito dos
professores e do sucesso dos alunos, apoiados em estatísticas cuja
real interpretação, à luz das mudanças que você operou, nos apresenta
uma monstruosa obscenidade. Ofende-me, sabe? Ofende-me por me tomar
por estúpida.

Aliás, a sua Ministra da Educação é uma das figuras mais
desconcertantes que eu já vi na minha vida. De cada vez que ela fala,
tenho a sensação que está a orar na missa de sétimo dia do sistema de
ensino e que o que os seus olhos verdadeiramente dizem aos pais deste
Portugal é apenas "os meus sentidos pêsames".

Não me pesa a consciência por estar a escrever-lhe esta carta. Sabe, é
que eu não votei em si para primeiro-ministro, portanto estou à
vontade. Eu votei em branco. Mas, alto lá! Antes que você peça ao seu
assessor para lhe fazer um discurso sobre o afastamento dos jovens da
política, lembre-se, senhor engenheiro: o voto em branco não é o voto
da indiferença, é o voto da insatisfação! Mas, porque vos é
conveniente, o voto em branco é contabilizado, indiscriminadamente,
com o voto nulo, que é aquele em que os alienados desenham macaquinhos
e escrevem obscenidades.

Você, senhor engenheiro, está a arriscar-se demasiado. Portugal está
prestes a marcar-lhe uma falta a vermelho no livro de ponto. Ah...
espere lá... as faltas a vermelho acabaram... agora já não há
castigos...

Bem, não me vou estender mais, até porque já estou cansada de repetir
"senhor engenheiro para cá", "senhor engenheiro para lá". É que o meu
marido também é engenheiro e tenho receio de lhe ganhar cisma.

Esta carta não chegará até si. Vou partilhá-la apenas e só com os meus
E-leitores (sim, sim, eu também tenho os meus eleitores) e talvez só
por causa disso eu já consiga hoje dormir melhor. Quanto a si, tenho
dúvidas.

Para terminar, tenho um enorme prazer em dedicar-lhe, aqui, uma
estrofe do episódio do Velho do Restelo. Para que não caia no
esquecimento. Nem no seu, nem no nosso.

"A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias? "

Atenciosamente e ao abrigo do artigo nº 37 da Constituição da
República Portuguesa,

Uma mãe preocupada


(Autora desconhecida)
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Re: Tempos de mudança

Mensagempor zézen » Segunda-Feira 17 Novembro 2008, 03:53

mas que pretos?

Num dos seus livros, Michael Moore faz a apologia dos pretos americanos. Não aqueles que se portam como brancos (a Rice, o Powell), mas os que se mantêm fiéis à sua identidade.
Esses sim, diz ele, são gente realmente interessante - e até declara que vai passar a empregar na sua empresa apenas pretos. Dos verdadeiros, entenda-se.
A intenção pode ser boa, mas é um pouco, digamos, ingénuo querer que as pessoas façam depender o seu comportamento do tom da sua pele e do imaginário do Michael Moore.

Confesso que sou um bocado daltónica.
Se é para descrever um Nelson Mandela ou um Kofi Annan, ocorrem-me muitos adjectivos antes de me lembrar da cor da pele deles. E muito menos de dizer que são "pretos".
Durante a campanha, mal me dei conta que o Obama não era branco - quando muito, um belo moreno. Bem sei que se fartaram de bater no Berlusconi por ter dito o mesmo, mas, que querem?, quando gosto das pessoas acabo a achá-las minhas iguais.
Além disso, e para usar a classificação do Moore, o homem tem presença e comportamento de "branco".

Tudo isto para dizer que talvez haja um equívoco na discussão sobre a América pós-racial.

Foi eleito um homem que soube passar uma mensagem de um modo tão arrebatador que se criou um momento de unidade, ao ponto de as pessoas se esquecerem de reparar no tom da sua pele. O que foi em parte facilitado por ele ser meio branco, ter sido educado no ambiente da classe média branca, e não ter marcados traços (e agora com licença, tenho de ir pesquisar no glossário do racismo, que é o mais adequado para esta conversa) negróides.

Os EUA elegeram para presidente o político que melhor lhes soube mostrar que estava em condições de dar ao país aquilo que é necessário neste momento.
Mas não elegeram - disso tenho a certeza absoluta - um preto.

"Preto", o que se chama "preto", são aqueles que fazem os trabalhos que ninguém quer, os que apanham prisão perpétua por roubarem uma pizza, os que vão morrer longe mesmo que morram no passeio da nossa rua.
"Preto" é o reverendo Jeremiah Wright, de quem Obama oportunamente se demarcou.

E esses continuarão a existir, rodeados de desconfiança e rejeição.
http://conversa2.blogspot.com/
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Re: Tempos de mudança

Mensagempor Viriato » Segunda-Feira 17 Novembro 2008, 15:29

zézen Escreveu:mas que pretos?

Num dos seus livros, Michael Moore faz a apologia dos pretos americanos. Não aqueles que se portam como brancos (a Rice, o Powell), mas os que se mantêm fiéis à sua identidade.



ou seja, os que continuam a cheirar a catinga ! :mrgreen:
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Re: Tempos de mudança

Mensagempor zézen » Terça-Feira 20 Janeiro 2009, 01:10

Sócrates avança para o casamento homossexual

Código Civil
ARTIGO 1577º
(Noção de casamento)
"Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código."

Agora sim! A discussão vai aquecer!

Sócrates coloca a fasquia da maioria absoluta a um nível muito elevado. Ninguém lhe pode, mais uma vez, negar coragem política.


Será que dentro de meses ou anos teremos um artigo 1577º do Código Civil nestes termos:
"Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código."?

Se considerarmos que na liberal Califórnia um Referendo realizado a 4 de Novembro último (dia das eleições presidenciais) aprovou uma emenda constitucional que proíbe o casamento homossexual, é razoável esperar que, em Portugal, este tema vá animar o debate e possa influenciar o sentido de voto de muita gente.

Este passo é de muita coragem e revela-se fracturante.
Com efeito, a maioria dos países europeus que legislou sobre aa matéria, criou um estatuto jurídico com efeitos (quase) semelhantes ao casamento, embora com um nome diferente.
Essa solução não me repugnaria. Veja-se que em matéria de Direito da Família distinguimos a adopção da filiação; e contudo ambos os institutos geram os mesmos efeitos jurídicos.

Ora, seria mais consensual avançar com a ideia de um instituto civil denominado, por exemplo, "união civil (entre duas pessoas do mesmo sexo)," que produzisse os mesmos efeitos que o casamento.

Por que razão distinguir as duas figuras jurídicas?
Porque o Direito se insere num "continuum" social, histórico e antropológico.
De todos estes elementos referidos não me parece exagerado afirmar que social, historica e antropologicamente se verificam diferenças entre a união entre um homem e uma mulher e a união entre duas pessoas do mesmo sexo.

Mas isto - o "nomen iuris" - é uma questão de pormenor...

Fundamental é saber quais os efeitos desse status jurídico.
Nomeadamente no que se refere ao acesso à Adopção e às técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA).

Se, perante a primeira questão, afirmo convictamente que o acesso à adopção deve ser garantido a todos os que demonstrarem ter as condições para educar uma criança e, em consequência, os casais de duas pessoas do mesmo sexo, devem ter igual acesso, já quanto à PMA isso implicaria uma revisão geral da recente Lei de 2006 e criaria muito mais problemas éticos (acesso à maternidade de substituição, filhos sem possibilidade de conhecer o progenitor masculino, etc.), cuja discussão se irá agora acentuar.

Para já fica só esta nota de cariz político:
José Sócrates mostra uma forte coragem e determinação; não tem medo do voto popular e tem uma concepção muito democrática da vida política.
Não quis aprovar o casamento de duas pessoas do mesmo sexo "às escondidas", seguindo o projecto do BE. Antes quer fazer isso com toda a abertura, com toda a clareza e apresentando ao eleitorado uma proposta clara!
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Re: Tempos de mudança

Mensagempor zézen » Quarta-Feira 28 Janeiro 2009, 14:33

Professores: sindicalistas acusam PCP de intromissão

Quatro dirigentes do Sindicato dos Professores do Norte (SPN) demitiram-se do PCP, acusando o partido de se imiscuir na vida interna da estrutura sindical, disse à Lusa uma das demissionárias.

«Os sindicatos são estruturas independentes quer o PCP goste ou não goste», disse à Agência Lusa Júlia Vale, membro do secretariado nacional e do conselho nacional da Federação Nacional dos Professores (Fenprof) e dirigente do SPN.

Júlia Vale enviou uma carta à direcção nacional do PCP anunciando o desejo de deixar de ser militante do partido onde está «desde os 11 anos de idade».

Abel Macedo, coordenador, juntamente com Manuela Mendonça, do Sindicato dos Professores do Norte, demitiu-se com uma longa carta onde explica os motivos que o levaram a abandonar o partido.

Também Adriano Teixeira de Sousa e Carlos Midões, dirigentes sindicais, apresentaram cartas de demissão.

Os antigos militantes do Partido Comunista Português (PCP) pretendem continuar a exercer funções no SPN.

«Houve eleições em Maio de 2008, fomos eleitos e não é por sairmos do PCP que vamos deixar de pertencer ao sindicato», referiu ainda Júlia Vale.

O Sindicato dos Professores do Norte integra a Fenprof e a CGTP.

As demissões ocorreram na mesma semana, mas Júlia Vale garante que não foi «uma posição conjunta».

«Houve uma coincidência de datas. Não combinámos demitirmo-nos, mas consideramos que existe um limite para tudo», frisou.

Os professores acusam membros do PCP de «perseguição» dentro do sindicato.

«Era militante, pagava as quotas, sou dirigente sindical, mas há dois anos que o PCP não me convocava para qualquer tipo de reunião», finaliza Júlia Vale.

http://diario.iol.pt/politica/professores-spn-sindicados-dos-professores-do-norte-sindicalistas-pcp-educacao/1035846-4072.html
***************************************************************************************

O ti Jerònimo pensou que estava a lidar com ajudantes de trolha e, f........-se :whistle:
(estes professores, são uns ingratos) :mrgreen:
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Re: Tempos de mudança

Mensagempor XôZé » Quarta-Feira 28 Janeiro 2009, 20:26

Achei piada :dedo: ao que li há dias um pouco pela imprensa, sobre aquele trabalhinho que os comunas sindicalistas mais os seus amigos comunas professores, fizeram por sua vez com os seus ignorantes alunos sobre o sanguinário ícone Xé ComVara! :evil:
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Re: Tempos de mudança

Mensagempor Arp » Segunda-Feira 24 Agosto 2009, 00:09

Não se assustem... ainda.
É apenas uma igreja baptista a ver se arranja uns adeptos aterrorizando o povão.
Coisas de religiões e de caixas de esmolas vazias...



…se calhar resolvia-se o assunto com umas pastilhas de testosterona e uns cortes na energia eléctrica à hora certa.
O saber, o aprender o novo, só não encontra espaço em cabeças que já estão cheias, principalmente de ideias preconcebidas.
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Re: Tempos de mudança

Mensagempor Arp » Domingo 8 Novembro 2009, 15:16

Isto preocupa-vos?



...a mim, sim!
O saber, o aprender o novo, só não encontra espaço em cabeças que já estão cheias, principalmente de ideias preconcebidas.
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Re: Tempos de mudança

Mensagempor Tovi » Domingo 8 Novembro 2009, 15:48

Arp Escreveu:Isto preocupa-vos? (...)

Claro que me preocupa... Mais que não seja, porque não sei nadar lá muito bem. :(

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