A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

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Mensagempor Viriato » Terça-Feira 16 Outubro 2007, 22:48

Eduardo Prado Coelho - In Público*

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como
Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o
que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso
começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi
Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós.
Nós como povo.

Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a
ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais o que o euro. Um
país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada
do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão
ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos
passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL,

DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras
particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa,
como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo
o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para
eles mesmos.

Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque
conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda
a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.

Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os
directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco
interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois
reclamam do governo por não limpar os esgotos.

Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.

Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem
que é muito chato ter que ler) e não há consciência nem memória
política, histórica nem económica. Onde os nossos políticos trabalham
dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para
caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns.

Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas
podem ser compradas, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma
pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou
um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está
sentada finge que dorme para não dar-lhe o lugar. Um país no qual a
prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde
fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos
governantes. Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de
Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem
corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo
o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de
que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o
que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.

Como matéria-prima de um país, temos muitas coisas boas, mas falta
muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa.

Esses defeitos, essa CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA congénita , essa
desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até
converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de
qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é
que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como
nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte...

Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o
próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma
matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não
poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa
fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a
erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem
serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve
Sócrates, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a
força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa.

E enquanto essa outra coisa não comece a surgir de baixo para cima, ou
de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram,
seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente
abusados!

É muito bom ser português. Mas quando essa Portugalidade autóctone
começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento
como Nação, então tudo muda..

Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam
um Messias.

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada
poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim,
creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer:
desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e
francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da
estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o
responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim,
exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco,

de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE
O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.

AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.

E você, o que pensa?.... MEDITE!

EDUARDO PRADO COELHO
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Re: A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

Mensagempor XôZé » Terça-Feira 16 Outubro 2007, 23:27

Em matéria de politica nunca me simpatizou mas reconheço humildemente que EPC tem nesse texto mais do que razão.

Sobre função pública, também posso dar uma achega.

Hei-de cá voltar.
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Re: A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

Mensagempor zézen » Domingo 25 Novembro 2007, 22:35

A medida de todas as coisas
19.11.2007, Rui Tavares


Foi preciso chegar ao fim de uma entrevista congratulatória (ontem, ao DN e à TSF) para que Durão Barroso fosse questionado sobre a Guerra do Iraque e confessasse: "Houve informações que me foram dadas, a mim e a outros, que não corresponderam à verdade."

Ouvir estas as declarações, bem como as dos restantes protagonistas da Cimeira dos Açores, é como ouvir as contraditórias desculpas de um grupo de rapazolas sobre uma noitada que correu mal. Cada um se justifica com os outros. Durão diz agora que só organizou o encontro porque os espanhóis lho pediram. É curioso: na altura toda a gente viu as piruetas que deu para poder aparecer na fotografia.

É embaraçoso para Durão, e mesmo escusado. Nós sabemos hoje muito mais do que as suas justificações insinuam. O memorando de Downing Street, publicado pelo Times em 2005, demonstra que quase um ano antes da guerra George W. Bush já tinha decidido invadir o Iraque. As informações e os factos iriam ser "amanhados" (fixed around no original) para justificar a decisão. Os seus aliados britânicos sabiam. As actas da reunião de Crawford entre Bush e Aznar, que o El País publicou recentemente, demonstram que um mês antes da guerra Bush recusara a ideia de Saddam abdicar e exilar-se no Egipto. Aznar sabia.

Sabemos hoje que Saddam poderia ter sido contido de muitas formas, já desde os anos 80, e que esta guerra deveria ter sido evitada. Perante isto, Durão diz que "agora é fácil". Pelo contrário, Sr. Durão: não foi fácil então ser contra a guerra e não é fácil ainda hoje - desde "fascistas" a "apoiantes de Saddam" e a "pró-terroristas" já fomos chamados de tudo -, mas foi demasiado fácil, isso sim, ir na onda e cuidar da carreira.

Se falo em carreira é porque Durão diz na mesma entrevista que não gosta da expressão "carreira política". Declarações portentosas vindas de quem, sobre a Guerra do Iraque, diz ainda o seguinte:

"Não temos que estar de forma nenhuma arrependidos da posição que tomámos. Portugal não perdeu nada, também na Europa, com isso. Repare, depois das decisões que tomei, fui convidado a ser presidente da Comissão Europeia e tive o consenso de todos os países europeus. O que demonstra que o facto de Portugal ter tomado naquela altura aquela posição não prejudicou em nada, em nada, a imagem de Portugal junto dos seus parceiros europeus."

Durão Barroso pode não gostar da expressão, mas faz da sua carreira política a medida de todas as coisas. Aquelas frases sugerem bem como funciona a sua cabeça e a de tantos políticos como ele. Portugal não tem que estar arrependido do apoio à invasão do Iraque. Porquê? Porque "não perdeu nada com isso". Não perdeu o quê: honestidade, credibilidade, autoridade moral? Nada de tais coisas; foi a nossa "imagem" que não sofreu. E como sabemos que a nossa "imagem" não sofreu? Porque a carreira de Durão o "demonstra".

Esta é a mais pura inversão moral. A carreira de um indivíduo é a medida da imagem de um país. A imagem de um país é mais importante do que o seu comportamento. E a opinião dos parceiros - em geral mais ricos, poderosos e brancos - é mais importante do que o destino de gente que é menos qualquer dessas três coisas.

Muitos anos, muitos jornais e muitas crónicas depois, pergunto-me se será demasiado ter uma palavra sobre os quinhentos mil mortos e quatro milhões de refugiados desta guerra. Mas afinal, os portugueses não devem preocupar-se com isso, porque Durão Barroso veio depois a ser nomeado para um cargo importante. Mais alguma coisa interessa?

(artigo publicado no jornal O Publico)
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Re: A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

Mensagempor Arp » Sexta-Feira 4 Abril 2008, 17:41

É uma pena que as poucas pessoas que sabem dirigir o país andem a guiar táxis, a cortar cabelos... ou tenham emigrado para França.
O saber, o aprender o novo, só não encontra espaço em cabeças que já estão cheias, principalmente de ideias preconcebidas.
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Re: A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

Mensagempor Viriato » Sábado 5 Abril 2008, 16:59

Arp Escreveu:É uma pena que as poucas pessoas que sabem dirigir o país andem a guiar táxis, a cortar cabelos... ou tenham emigrado para França.


essa frase é minha

escrevi isso aqui há uns anos algures ..............


claro está que não mencionava nenhum imigrante de França, fosse de que nacionalidade fosse !


e era assim a frase : " é pena que todos os indivíduos com capacidade para dirigirem o país jà estejam ocupados a conduzir taxis ou a cortar cabelos na s barbearias "
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Re: A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

Mensagempor Reboredo » Sábado 5 Abril 2008, 20:24

" é pena que todos os indivíduos com capacidade para dirigirem o país jà estejam ocupados a conduzir taxis ou a cortar cabelos na s barbearias "


Até estes imigraram para frança e o país ficou na situação que se conhece!
Sempre sempre não, mas sempre sempre até é bom.
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Re: A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

Mensagempor zézen » Domingo 6 Abril 2008, 15:29

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Re: A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

Mensagempor Arp » Domingo 6 Abril 2008, 17:47

Viriato Escreveu:
Arp Escreveu:É uma pena que as poucas pessoas que sabem dirigir o país andem a guiar táxis, a cortar cabelos... ou tenham emigrado para França.


essa frase é minha

escrevi isso aqui há uns anos algures ..............


claro está que não mencionava nenhum imigrante de França, fosse de que nacionalidade fosse !


e era assim a frase : " é pena que todos os indivíduos com capacidade para dirigirem o país jà estejam ocupados a conduzir taxis ou a cortar cabelos na s barbearias "

Ouvi ou li essa há muitos anos, sem a parte dos que foram para França, mas não sabia que era da tua autoria. Desculpa lá por não te ter citado.
O saber, o aprender o novo, só não encontra espaço em cabeças que já estão cheias, principalmente de ideias preconcebidas.
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Re: A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

Mensagempor Viriato » Domingo 6 Abril 2008, 18:46

Arp Escreveu:
Viriato Escreveu:
Arp Escreveu:É uma pena que as poucas pessoas que sabem dirigir o país andem a guiar táxis, a cortar cabelos... ou tenham emigrado para França.


essa frase é minha

escrevi isso aqui há uns anos algures ..............


claro está que não mencionava nenhum imigrante de França, fosse de que nacionalidade fosse !


e era assim a frase : " é pena que todos os indivíduos com capacidade para dirigirem o país jà estejam ocupados a conduzir taxis ou a cortar cabelos na s barbearias "

Ouvi ou li essa há muitos anos, sem a parte dos que foram para França, mas não sabia que era da tua autoria. Desculpa lá por não te ter citado.


tenho outra gira, se estiveres interessado :

a diferença entre ditadura e democracia é a seguinte :
numa ditadura, não podes dizer nada ! porque os governantes estão sempre preocupados com o que dizes
numa democracia, podes dizer o que quiseres ! porque todos se estão a cagar pro que dizes
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Re: A CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA

Mensagempor Arp » Domingo 6 Abril 2008, 19:11

Também já tinha lido/ouvido, mas estou sempre interessado em aprender tudo, ou mesmo em reaprender aquilo que já considerava adquirido há muito tempo.

Anoto e saúdo o facto de que sejas tu, que tudo sabes e provavelmente já nasceste assim sapiente, a ensinar-me.
O saber, o aprender o novo, só não encontra espaço em cabeças que já estão cheias, principalmente de ideias preconcebidas.
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