ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA... (só para iniciados)

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Mensagempor zézen » Quarta-Feira 25 Junho 2008, 10:20

Porque (durante 18 anos) vivi momentos fortes com este Amigo e Homem de convicções, aqui fica (para quem se interessar) o testemunho de quem foi FMR. (conclusão de artigos no Absorto e no Almanaque Republicano)

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Re: ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA... (só para iniciados)

Mensagempor zézen » Sexta-Feira 27 Junho 2008, 23:39

O patriarca da família Jardim das revistas cor-de-rosa

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Em Outubro de 1967 fui desterrado para o norte Moçambique, pelo único crime de ser português, obrigado a integrar o exército de ocupação que o ditador vitalício – Salazar – resolveu usar para atrasar a história e se manter no poder até que a cadeira teve a audácia que faltou aos compatriotas.

Foram 26 meses de sofrimento, às vezes de fome, quase sempre de medo, nada que se comparasse ao flagelo dos povos indígenas: a lepra, a tuberculose, a fome e o terror da tropa e da FRELIMO, populações que as autoridades administrativas tratavam como se fossem gado.

Já lá vão quase quarenta anos que terminou o pesadelo, e ainda hoje recordo os rostos tristes das crianças e o ar de sofrimento de um povo ocupado por invasores. Mas para que hei-de falar disso se a dor e a revolta não se apagam?

É a farsa que hoje decorre no Zimbabué que me trouxe à memória aquelas paragens e os tempos do Portugal salazarista. Tal como o nosso ditador vitalício, também o que hoje o imita na farsa eleitoral se considera perpétuo e intransigente a ceder o poder. Ouvi-o, há pouco, a dizer que o poder lhe foi dado por Deus e que não permitiria que lho tirassem.

Curiosamente, também era então vitalício o ditador do Malawi, um pequeno país que fazia fronteira com a região do Niassa e que o exército português invadia regularmente sob o pretexto de perseguir os soldados da FRELIMO. O presidente vitalício era, como todos os ditadores, um indivíduo sem dignidade. Chamava-se Banda e tinha um cônsul na cidade da Beira que era o português mais influente de Moçambique, antigo membro do Governo de Salazar, perigoso político habituado a trabalhar na sombra.

Um dia a Companhia de Caçadores 1626, uma força de intervenção, invadiu o Malawi e, contrariamente ao costume, esqueceu-se de um 1.º cabo, fardado e armado, na pressa de se afastar dos jipes da polícia militar do país invadido. Ficou ansioso o Comandante do Batalhão n.º 1936, um destemido e honrado tenente-coronel, Luís Canejo Vilela, quando o capitão lhe deu conta da expedição e do desaparecimento do militar.

As coisas nem sempre são tão graves como parecem, basta a desonestidade dos homens e a falta de honra serem maiores do que deviam.

Na sede do Batalhão, no Catur, apareceu no dia seguinte o famigerado Eng.º Jorge Jardim no avião particular, com piloto privativo. Dois dias depois o 1.º cabo era entregue, incólume, em Mandimba (fronteira), com o camuflado intacto, o morteiro e as respectivas granadas.

Dessa vergonha, que acabou bem, guardo a foto que aqui deixo. Entre o major Artur Batista Beirão, à esquerda (que viria a ser general comandante da Região Militar de Lisboa, onde substituiu Vasco Lourenço) e o tenente-coronel Luís Vilela, está uma figura do fascismo português, disfarçado de régulo, pai e avô das Cinhas e Pimpinhas com o mesmo apelido, o indivíduo que ameaçou Moçambique com um banho de sangue na louca aventura de tentar uma independência branca, à semelhança da Rodésia e da África do Sul.

Eis um pouco da história que ninguém conta.

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Re: ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA... (só para iniciados)

Mensagempor Viriato » Terça-Feira 1 Julho 2008, 22:50

conversa de chacha agora, depois do 25 de Abril, mas na altura estavam todos contentes nas fotos ! :roll:
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Re: ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA... (só para iniciados)

Mensagempor Arp » Terça-Feira 1 Julho 2008, 23:37

Não sei se o autor está entre as figuras da foto e nem se se riu na altura, mas, mais de quarenta anos depois, teria todo o direito a mudar de opinião. Penso eu... :?
O saber, o aprender o novo, só não encontra espaço em cabeças que já estão cheias, principalmente de ideias preconcebidas.
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Re: ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA... (só para iniciados)

Mensagempor zézen » Quarta-Feira 6 Agosto 2008, 08:01

Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
271º
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Moçâmedes foi povoada por algarvios. Era a única terra angolana onde os brancos eram em maior número que os negros. Talvez a única terra africana com estas características. Encontrei hoje um cabeça de pungo. "Morreu-me lá um irmão, estava fazendo qualquer coisa na fábrica de farinha de peixe, caiu ao silo..." Já não me importa a memória mas associei o gerúndio algarvio, as baratas algarvias, os camaleões algarvios, a conquilha algarvia, a este clima subtropical cheio de gente, sem deserto e animais nos bebedouros.

http://bloguedoshumanos.blogspot.com/2008/08/271.html
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Re: ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA... (só para iniciados)

Mensagempor zézen » Quarta-Feira 8 Abril 2009, 10:07

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Re: ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA... (só para iniciados)

Mensagempor zézen » Terça-Feira 1 Dezembro 2009, 11:29

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Re: ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA... (só para iniciados)

Mensagempor XôZé » Segunda-Feira 7 Dezembro 2009, 22:33

Extraído de um dos blogues que tenho como de referência... :grin:

Eu ainda vivi na Pré-história: A criadagem.

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Nota prévia: ao contrário das sociologisses, muito assépticas, muito bata-branca, luvas de poliuretano, a vida parece contradizer as racionalizações, acertos e julgamentos à posteriori, não passando aquelas, as mais das vezes, de simples anacronismos. Estas notas não são, pois, manifesto de qualquer visão do mundo, mas simples apontamentos do que vi. É importante o aviso, pois nos tempo que correm há sempre um censor à espreita.

Não havia família que se prezasse que não tivesse criados. Havia-os conforme o nível dos patrões. Em África, criada branca era um luxo, mas o luxo pagava-se caro. Era uma segunda patroa, a comandante dos criados, que por sua vez se estratificavam em moleques, mainatos e cozinheiros, estes últimos verdadeiros sobas que exerciam poder sobre os demais da sua raça. Os criados africanos tinham pedigree diferente. Uns eram uns verdadeiros príncipes, netos ou sobrinhos de reinetes e não se misturavam com os outros. O tribalismo separava-os em níveis distintos de respeitabilidade. Ninguém aceitava ter um M' Chope em casa, pois a casta especializara-se na arte de varrer as ruas das cidades. Trabalho só arranjavam nos serviços camarários. Um criado angoni ou vátua valia uma fortuna. Eram uma espécie de alemães de Moçambique: consideravam-se superiores aos outros, nunca recebiam ordens que não dos patrões e só aceitavam farda diferente.

Fardas, havia-as conforme o nível do criado: calção e camisa castanha alaranjada ou azul para os criados menores, calça comprida e camisa para criados superiores. No fim da era colonial, com o desafogo que se respirava, os criados superiores passaram a recusar farda e vestiam-se com o que de mais caro podiam comprar nos bazares. Tinha um criado que só vestia calças com boca de sino, sapatos de quatro andares e camisas de seda brilhante, isto para o trabalho. Quando saía para passear, levava óculos escuros - de noite como de dia - e transportava às costas um daqueles rádios de dez quilos e som poderoso que apareceram no princípio dos anos 70. A maquineta despejava em altos decibéis marrabentas e música sul-africana pop que se ouviam no quarteirão seguinte.

Depois, os criados tratavam de forma diferente as visitas da casa, conforme a posição que o seu juízo atribuía aos estranhos. Se eram "brancos de segunda" - vendedores, cobradores, "cravadores", como lhes chamavamos - entravam pela cozinha. Porta da frente, só para "senhores e senhoras". Quando o convívio interracial se tornou prática comum, os mistos tiveram problemas. Os negros odiavam os mestiços e não aceitavam que fossem "senhores e senhoras" como os "outros". Se fosse indiano, a cara fechava-se. Nunca vi tanto ódio negro acumulado e tanto ressentimento como aquele que era destinado aos indianos. Se a visita fosse negra, era um problema, um problema muito grave. Lembro-me que um dia o grande pintor Malangatana, amigo dos meus pais, lá foi a casa almoçar. O criado que servia chamou a minha mãe e impôs-lhe condições pouco menores que um ultimato: "se a Senhora me obrigar a servir este preto, vou-me embora". A razão era simples: Malangatana Valente era oriundo de um grupo étnico que o Augusto - Augusto Matavela, de seu nome - considerava inferior à sua pedatura, pelo que obrigá-lo a servir um inferior o sujaria.

O criado de primeira tinha um sonho: fazer a escola primária e ir trabalhar para uma companhia. No dia em que terminou a 4ª classe, o Augusto colocou uma mão dentro da camisa, outra atrás das costas e disse: "agora já sou Napoleão". Era um excelente homem e considerava-se um bom português. Discutia longamente com um vizinho, também criado, as lutas entre Dom Afonso Henriques e Dona Teresa, sabia de cor os reis e dinastias e cantava o tema de Lara com uma letra bem portuguesa: "Je-êe-sus Cristooooo, nasceeeuu'o em Belém". Um dia apareceu fardado. Tinha sido chamado para o Exército e foi cabo.

Dos píncaros da criadagem já falámos. Agora, havia outros, os qua iam para casa dos patrões e aí aprendiam o português. Tivemos um matulão de quase dois metros chamado Eugénio Lombé, mas insistia que lhe chamassem Eugéninho. Tinha a força de um tractor e de um Caterpillar juntos, nunca foi grande na arte das limpezas, nem dos cozinhados, mas era uma boa alma e de fidelidade quase inumana. Era um inocente, com um sorriso de orelha a orelha e a especialidade era levar os meninos à escola. Levava-nos - a mim, ao meu irmão Nuno e à minha irmã Ângela - todos juntos, um às cavalitas, os outros dois em cada braço. Força desta já não há.

O Eugéninho aprendeu o português por frases feitas. Ao princípio, soava a campaínha, ia à porta abrir e perguntava de chofre à visita, antes que esta tivesse tempo de perguntar fosse o que fosse: "boa dia senhor/a, não as deseja pão com doce muito gostosinho ?". Quando veio o 25, o Eugénio ouviu demais o que se propagava pelos bairros da periferia. A minha mãe perguntou-lhe: "Eugénio, se um dia pessoas más quiserem matar a senhora e os meninos, o Eugénio fazia mal à senhora e aos meninos ?". Resposta: "minha senhora, se eu matasse a senhora e os meninos, matava depressa para não fazer mal".

Copiado daqui :arrow: http://combustoes.blogspot.com/
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